terça-feira, 29 de março de 2011

O QUE É PERFORMANCE?

Comecemos pelo começo: a etimologia da palavra, que se refere a um ato pelo qual se dá forma a alguma coisa ou se revela a forma de alguma coisa. esta ideia de dar/revelar uma forma é essencial para os estudos estéticos, afinal, analisamos obras de arte, que são manifestações formais (entre muitas outras coisas).

No dicionário, encontramos a palavra performance como sinônimo de “desempenho” ou “atuação”, ampliando os sentidos do termo para além do campo das artes: performance é termo utilizado nos esportes, na área de tecnologia, recursos humanos etc.

O termo performance é muito utilizado na arte contemporânea para designar vários tipos de intervenções artísticas nas quais o artista assume um papel ativo frente ao público, atuando muitas vezes como o próprio veículo de expressão de sua obra. Expressões como o happening ou a arte-performance podem servir como exemplos, embora não sejam os únicos. 

Para os estudos da palavra (canção, literatura, teatro, linguística etc.) o conceito de performance tem como importante marco teórico a obra de J. L. Austin: de forma grosseira, podemos dizer que o pensamento de Austin se baseia na noção do que ele batizou como “atos de fala” (ou speech acts) cuja principal característica é a performatividade, ou seja, em determinadas situações, “falar é fazer”. O exemplo clássico oferecido por Austin é o casamento: ao pronunciar a frase “eu aceito”, os noivos não estão apenas declarando algo, estão contraindo matrimônio. Antes de Austin, Saussure já havia chamado atenção para o fato de que a linguagem é essencialmente sonora (linguagem é pensamento-som), uma característica que guarda forte ligação com a ideia de performatividade desenvolvida por Austin. Há que se comentar ainda sobre os escritos de Walter Ong, que apontou diferenças essenciais sobre os modos de pensamento e expressão oral (em sociedades ágrafas ou pouco letradas) e escrito. Ao revelar tais diferenças, Ong também concluiu que as tecnologias da linguagem (escrita, imprensa e meios digitais) nunca apagaram as marcas da oralidade.

Outro pensador importante nos estudos de performance é Paul Zumthor que, vindo dos estudos literários, desenvolveu uma importante linha de pensamento sobre a performance a partir de suas investigações sobre a “literatura” medieval – ele utilizava a expressão entre aspas para diferenciar as manifestações poéticas da idade média (essencialmente orais e ligadas à música) da ideia contemporânea de literatura. Em vez de definir performance, Zumthor nos fala de “graus de performaticidade”, correspondendo a performance presencial (artistas e público presentes no mesmo espaço) ao mais alto grau de performaticidade. Para Zumthor, até mesmo a leitura de um texto impresso (um livro, por exemplo) é considerada performance, correspondendo à situação com grau mais baixo de performaticidade. O importante aqui é o momento da interação entre obra e público, no que as ideias de Zumthor se aproximam do pensamento de críticos ligados à chamada estética da recepção (reader-response criticism ou reception theory).

Esta noção de performance que tem como núcleo a interação obra x público e leva em consideração as diferentes gradações desta interação é extremamente útil aos estudos da palavra performatizada em suas várias modalidades (palavra falada, cantada, declamada, visualizada etc.).

Voltando à pergunta inicial, podemos dizer que não há uma resposta absoluta, apenas ideias e conceitos abertos demais para permitir uma definição bem delimitada. A reação de achar que “tudo é performance” é bastante natural e está relacionada a uma condição profundamente humana: a mudança. Tudo que diz respeito à nossa percepção de mundo pode ser considerado performance na medida em que nos relacionamos com um universo em constante transformação, e nós mesmos somos seres mutantes por excelência. As formas do mundo são formas em movimento. O mundo performa (revela suas formas) para nós, seres performadores (criamos novas formas e as revelamos de volta ao mundo).

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